O QUE É UM BOM NATAL?
ARTICLES • 18-12-2018
O QUE É UM BOM NATAL?

Dizemo-lo repetidamente por esta altura. Por cortesia ou educação, por empatia ou de coração... "Bom Natal!"

Mas o que é isso de um Bom Natal? Será que desejamos que tudo se resolva neste últimos dias? Que empregos se encontrem à última hora, que doenças desapareçam, que dívidas complicadas se resolvam e novos parceiros de vida sejam encontrados? Provavelmente não.

O que desejamos então, para lá do hábito, para lá da troca gentil de trato, da desculpa para contactar um cliente distante? O que está para lá das palavras? O que desejamos mesmo num "Bom Natal" bem sentido, daqueles de coração generoso? O que desejaríamos se fosse o último Natal de alguém? Ou se fosse a nossa última oportunidade de o desejarmos, no nosso último ano de vida? O que quereríamos que acontecesse nesse desejo misterioso, caso pensássemos realmente no que dizemos?

 

Eu diria que, para lá das circunstâncias, que certamente pouco mudarão a dias do evento, o que desejamos é uma certa forma de estar, uma certa presença, um certo estado de alma. Uma calma que sobressaia da azáfama do mundo das coisas, que nos apazigue o espírito, e nos prepare para nos aproximarmos da raiz humana de cada um. E, diria, tanto dos mais próximos, como dos que estão nas escadas da igreja, à espera de uma generosidade extra, que vem de termos o privilégio de nos podermos dar ao luxo, nesta época, de dedicarmos uns instantes a realmente imaginar como será viver ali, diariamente à mercê de moedas pingadas e de uma sopa fria que sobre no restaurante em frente.

 

Desejamos Bom Natal, verdadeiramente de coração, quando transmitimos o desejo de que se celebrem, nesta altura em especial, as coisas invisíveis do dia-a-dia. Por ser uma oportunidade de não ser apenas mais uma refeição. Até porque começa bem antes dela, quando mesmo no meio da correria das prendas vibramos com a simples visão do sorriso que um presente vai despertar. Em que aproveitamos a desculpa para juntar amigos tresmalhados num "natalinho" simbólico - símbolo do momento espiritual certamente bem mais do que do momento religioso. Mesmo para todos os auto-excluídos que, quase por defesa, teimam em "odiar o Natal", talvez por não conseguirem ver para lá do pequeno caos circunstancial que sempre traz atrelado, talvez por não terem a escolaridade necessária para se autorizarem a sentir um certo sentir, distinto, que vem de nos atirarmos a todos para o mesmo saco, no bom sentido.

 

Claro que Bom Natal não tem que ver com o bacalhau ou o perú ou o que for, nem com as guloseimas. Mas com o porquê de nos darmos a esse trabalho, todos ao mesmo tempo, tantos que somos e havíamos de combinar pensar em simultâneo em alguma coisa num dado dia, afinal de contas o quê? Algo tão importante e que passará tão despercebido durante todo o resto do ano, que até merece que sintonizemos datas, viajemos milhares de kms, criemos os maiores picos de tráfego aéreo, os maiores picos de mensagens de texto e telefonemas, para que, todos ao mesmo tempo nos encontremos... para celebrar exatamente o quê? Não fará sentido parar um pouco para pensar nisto?...

 

Desejo-vos um Bom Natal. De coração. Que para mim quer dizer que possam sentir mais do que o costume, como se pusessem o rádio da alma no máximo, e essa melodia celestial, que é mais um silêncio que outra coisa, possa tomar conta de vocês, sossegar esse pensamento acelerado, e dar-vos autorização de pulsar ao ritmo do vizinho, do desconhecido, da irmã ou do pai. Que para lá da doença se veja o humano, que para lá da falta se veja a inocência, que para lá da diferença se veja a natureza comum, que para lá da exigência espreite a tolerância. Enfim, mil clichés que não dirão nada se forem apenas instruções de uso para tentarmos ser melhor, ao invés da liberdade, da autorização, para pousarmos na essência do que já somos, que são todas essas coisas, impensadas, sem esforço.

 

E vocês? O que desejam quando desejam um Bom Natal?

Fica o desafio para pensarem nisso, a tempo da próxima vez que o tenham que dizer... quem sabe não sairão as mesmíssimas palavras embrulhadas num olhar diferente?

Gonçalo Gil Mata

 


 

(Foto: arredores de Granada, Nicarágua)

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