A FEBRE DO SUCESSO
ARTICLES • 28-03-2018
A FEBRE DO SUCESSO
 

 
"Podes ser tudo o que quiseres ser! O presidente da república, um Freddy Mercury, um Einstein, um Salvador Dali. Só tens que criar o sonho, esforçar-te e... tchanam!! voilá, all wishes coming true."
 
É moda, mas não é verdade. É falso. E é tão falso quão frustrante. Tão desonesto quão desorientador. Coloca o ónus da responsabilidade no jovem, um peso enorme nas suas costas. E estabelece métricas tolas para o sucesso. Como se o mundo da forma, o mundo da popularidade, ou do reconhecimento, ou dos likes, ou da "carreira", fosse a verdadeira pontuação da elegibilidade de cada um. É simplesmente pernicioso. E muitas vezes imobilizador, porque quando este degrau à minha frente pertence a uma escada que não parece terminar em nada suficientemente grandioso, nem vale a pena subir. E vêmo-los então a pairar cá em baixo, sem rumo, sem projeto, sem vontade para nada...
 
 
Há que pensar nisto. O mundo tem regras, tem estatística, tem probabilidades, tem tendências. E se é verdade que não faltam exceções à regras, é igualmente verdade que a regra se mantém para todas as não exceções. O acaso também joga uma carta determinante na forma como as coisas se desenrolam na nossa vida. Nada depende apenas do nosso esforço. E não, não é impossível, mas também não é nada provável que o meu filho venha a ser o próximo Ronaldo, por mais que se esforce, por mais que treine, por mais que pratique. E vender a ideia que a mera disciplina e força de vontade determinam tudo é falhar redondamente as premissas elementares do universo, sobrecarregando emocionalmente, e sem necessidade, um caminho que poderia ser muito mais natural, muito menos forçado.
 
 
O mais importante de tudo isto, parece-me, é que é mesmo fácil para uma criança confundir "sucesso aparente" com felicidade. É mesmo fácil, com esta história da grandiosidade, desorientar um adolescente sobre o que vale ou não pontos na vida. E promover uma distração permanente para o enorme prazer da banalidade. Das pequenas coisas. De uma simples refeição em família. De uma praça solarenga. De viver segundo princípios. De usufruir do mero agora.
 
 
A felicidade parece-me muito mais dependente de um alinhamento interior do que do resultado que isso possa promover cá fora. E sim, há Ronaldos alinhadamente bem sucedidos e felizes, como os há desastrosamente miseráveis por dentro. E da mesma forma, não esqueçamos, não faltam pessoas incrivelmente felizes com uma vida cujos parâmetros materiais e profissionais são aparentemente medianos, mas que injetam em cada coisa que fazem toda a sua inspiração e vontade de contribuir para o mundo. 
 
Venham-me lá convencer que há grande diferença entre ser o Bill Gates e criar uma fundação gigantesca ou estar um ano em Timor a ajudar com as próprias mãos 20 crianças a construirem uma escola. Venham-me lá comparar ganhar o campeonato do mundo com a imensa felicidade de ganhar o campeonato da escola. É que enquanto não virmos a plasticidade da escala, não vamos perceber nada da mente humana. E falhamos o facto de que a métrica está na entrega. Na entrega ingénua, livre, inocente e infantil de subir esse primeiro degrau, por fazer sentido por si só, não apenas por ser uma promessa para futuro no cimo da escadaria. Não apenas remetida para depois, para um dia em que alguém virá lá no alto com uma medalha para nos pôr ao peito...
 
Pobres medalhas as que não são do espírito. E ricas vidas as que não se orientam por medalhas, mas por vontade de fazer o bem, de acrescentar valor, à nossa escala, seja a que for: na nossa rua, na nossa escola, ou no mundo inteiro, se assim estiver escrito nas estrelas...
 
Caso para dizer: desejo-vos um dia perfeitamente mediano... e incrivelmente suculento nos seus detalhes mais banais! 
 
 
 
 
Gonçalo Gil Mata
 
 
 

(Foto: Tian Tan Buddha, Ngong Ping, CHINA)
 
 

 

3 comments
Maria Ermeiro
Obrigado Gonçalo, pelas sua palavras e pela forma fantástica com que coloca em palavras muito daquilo que todos sentimos. Por favor continue, que nós cá estaremos para continuar a ler.
in 2018-04-04 10:54:59
Maria Jesus
Bem haja, pelas palavras sábias, de facto nem todos os seres estão "equipados" para todas as realidades existentes, o reconhecimento social cujos requisitos são falaciosos, hipócritas, gananciosos, frívolos e descabidos das potencialidades de cada um, logo não exequíveis, trazendo infelicidade a quem se propuser atingi- los. Teremos de ser realistas e não nos deixarmos arrastar pelas tendências, até porque diz o povo, "a verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima" há que estar atento...
in 2018-04-03 11:02:13
Frederico Ferreira
Ultimamente ando muito interessado na filosofia budista e comprei um livro intitulado "Conceitos Fundamentais do Budismo" do venerável mestre Hsing Yün. Quando li a propósito dos Kleshas e sobre o klesha da ganância identifiquei-me imediatamente. Diz o Venerável Mestre Hsing Yün "A ganância caracteriza-se pelo excesso. Quando a intensidade dos nossos desejos é tal que nos faz perder o sono, julgar equivocadamente, comportar de forma imoral, intoxicar o organismo é porque estamos a ser levados pela veloz correnteza da ganância". Ou seja, quer eu com isto dizer que cheguei à conclusão de que sou uma pessoa muito gananciosa. Porque eu quero ter mais amigos, ter um alargado grupo de seguidores, ter uma mulher, uma família, um melhor carro, um melhor emprego, uma melhor casa. Ter, ter, ter. E quando não consigo o que pretendo fico frustrado e adopto comportamentos compulsivos e aditivos. Sou muito ansioso. Custa-me a adormecer. De vez em quando acordo ao meio da noite. E depois não consigo voltar a adormecer. Não consigo ter um relacionamento amoroso porque tenho a tendência a apressar as coisas. Faço imensa pressão paras as coisas acontecerem. Uma amiga minha disse que eu não devia forçar as coisas, mas mesmo assim eu caio sempre no mesmo erro. Hoje compreendo que muitos dos meus comportamentos são causados por incentivos exteriores. Os meus pais estão sempre a perguntar quando é que eu arranjo uma namorada. Quando é que lhes vou dar um neto. A sociedade diz-me que eu para ser bem sucedido tenho de ter um bom emprego, onde se ganhe bem. Que tenho de ter uma boa casa. Que a questão do status é importante. Que tenho de ter um smartphone topo de gama. Um carro topo de gama. Para ser bem visto. Eu tenho consciência disso. Mas ainda não aprendi, completamente, a lidar com o facto de que não posso ter tudo quanto quero e deixar as coisas acontecerem naturalmente, sem as forçar. Como diriam os Rolling Stones "You can't always get what you want/But if you try sometimes/You just might find you get what you need!" Com isto quero dizer que vou procurar fazer coisas que eu goste de fazer, mas não vou fazê-las com o intuito de encontrar alguém que goste mim. Vou tentar deixar as coisas acontecerem naturalmente. Que Deus me valha!
in 2018-03-29 10:39:00
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