SEMPRE A MESMA ARMADILHA
ARTICLES • 28-02-2018
SEMPRE A MESMA ARMADILHA

 


 
tropeçamos sempre no mesmo vício: avaliar os sentimentos. como se daí extraíssemos o que fazer com o resultado. livrar-me deste, ter mais daquele, otimizar o outro. fórmula atrás de fórmula. cada vez mais em abstrato. com mais regras de alto nível. que implementam qualquer coisa, com o intuito de provocar uma outra que se chegar ao ponto desejado vai permitir uma outra ainda. quase sempre um desejo final, um propósito último: paz. paz imaculada. sempre a guerra para obter essa paz, que só chega quando lhe apetece, e sempre mais foge se a perseguimos.
 
a pressa tola. a pressa com os miúdos, o estacionamento, o anda lá no supermercado, rápido para chegarmos a horas a um sítio onde teremos tempo, mas nunca chegando bem esse momento. sempre para depois. sempre o sentimento de culpa a fustigar um pouco mais de disciplina. espreme que a terás, porque tem de ser. sempre sacrificar agora para obter o depois.
 
papá, vi um pássaro a entrar num ninho, anda lá joão, que estou tão atrasado. deus meu, um pássaro a entrar num ninho, ouviu-se lá falar de coisa tão mágica, ali mesmo nas árvores do marquês, o miúdo encantado com o momento de ver, não no canal panda num episódio da patrulha pata, não num écran de telemóvel no youtube, mas ali, em frente aos seus jovens olhos, com toda a subtileza da cor viva, do som ao vivo, do molhado da chuva nas penas e nos ramos a luz brilhante, sem vidros de écran, nem limites para a verdadeira alta definição do puro real. um pássaro a chegar ao seu ninho, num buraco de árvore mais perfeito do que o do livro de histórias que se lê ao deitar. um qualquer melro a vir proteger-se do mau tempo na casota onde vive. nada excecional e ao mesmo tempo incrível. tão básico quanto precioso. tão simples quanto perfeito. ali e eu nada, que não temos tempo, que é preciso chegar a um sítio que promete um dia haver a magia que ali estava, à mão de semear.
 
saberemos nós ainda imaginar o que é ver isto pelos olhos de uma criança? ter-se-á perdido a maquinaria que gerava esse filme de paz, de magia, de sonho, de descoberta libertina e desregrada? despudor ainda não conspurcado de usar a mente, de deixar usar a mente, de deixar a mente ser usada como tela, do mais incrível filme de pura criação de experiência, de pura criação dos pilares da experiência, nova, em mutação, em permanente redefinição, pacífica, fluída, autónoma, uma viagem, a viagem existencial...
 
saberá ainda, alguma parte de nós, o que é olhar como uma criança?
 
 
quão disponível essa paz, tão aqui perto. e quão enevoado está cá dentro, que nem a vemos. a um passo. a uma pausa de 5 segundos de ver. de olhar para onde o miúdo apontou. estancar a passada bastou para ver ser criada essa fotografia. inteira. completa. 3D, 4D, 1000D... fotografia tanta, quanta cabe numa mente por um momento espaçosa, cheia de nada, cheia desse espaço onde tudo se desenha, onde cada nada ganha vida.
 
 
sossegue-se esse ruído mental, e por um instante seremos deus...
 
 
 
Gonçalo Gil Mata
 
 
 

(Foto: Peninsula de Valdez, PATAGONIA, ARGENTINA)
 
 

 

4 comments
Maria Jesus
Caro Gil Mata, até o nom foge à regra, longe da carneirada em que se encontra a sociedade, Parabéns pela "Sensibilidade e Bom senso", que demonstra sempre em tudo o que faz, obrigado por partilhar todos estes momentos sensíveis e humanos que não existem no nosso quotidiano.
in 2018-03-13 10:26:48
Liliana Perestrelo
Obrigada Gonçalo por este momento (de paz)!
Tive de conter as lágrimas para conseguir ler até ao fim!
Está tudo aqui, neste texto. A verdadeira paz, a verdadeira essência. Aquilo que realmente nos preenche. Os momentos de felicidade que nos esquecemos de aproveitar.
Obrigada por me recordar...
in 2018-03-03 12:03:30
Cristina Tomé
Adorei. Senti o molhado da arvore, ouvi o barulho do pássaro e vi o pai a olhar para o relógio...isto acontece quando a escrita é mágica.
in 2018-03-01 17:00:39
Frederico Ferreira
Uau. Por momentos pensei que fosse uma transcrição de um livro do Saramago. Digo isto por causa do estilo de escrita que utiliza. De facto já o meu pai me dizia "retira prazer das coisas mais simples da vida". Coisa que eu não entendia até agora. Observar o nascer do sol desde a minha varanda não tem preço. Ir à praia. Ver o mar. Sentir aquele cheiro da maresia. Ouvir o som das ondas do mar a rebentar. Não tem preço. Felizmente cresci num meio meio rural meio citadino e tive a hipótese de ver como as coisas cresciam. Donde vinha o leite das vacas. Donde vinham os ovos. Como é que se cultivavam as batatas, as cebolas, as couves. Hoje em dia existem muitos miúdos citadinos que não fazem ideia donde as coisas provém. Eu na altura achava aquilo tudo uma seca, mas hoje dou muito valor por ter crescido naquele meio. Em contacto com a natureza. Infelizmente agora o cenário está muito mais escuro. O meu concelho (Oliveira do Hospital) foi um dos mais atingidos pelos incêndios de 15 de Outubro do ano passado. De certa forma
confrange-me o coração cada vez que agora vou visitar os meus pais de ver o estado das coisas. Mas enfim. That's life. Anyway queria parabenizá-lo por mais um excelente texto. Congrats.
in 2018-02-28 13:49:04
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