O NOSSO TRABALHO É SER
ARTICLES • 31-01-2018
O NOSSO TRABALHO É SER

 


 
Parece mesmo, mesmo, mas não é verdade. Que a tensão nos vale boas decisões. Que a pre-ocupação nos ajuda a reagir melhor. Que o ruído mental nos ajuda a não vacilar, a estarmos atentos, a não deixar escapar nada, a termos coragem ou a sorver melhor a vida...
 
 
E é pena. Porque, parecendo, não vemos como toda essa atividade nos afasta de realmente aparecermos em cada situação com a simplicidade de sermos o que somos, munidos dos nossos valores, das nossas preferências, da nossa surpresa, da nossa curiosidade, da nossa vontade de acrescentar bem ao mundo.
 
 
Faremos sempre o melhor que soubermos em cada momento. Certo mas não sabido. Ou sabido mas ignorado. Como é certo mas não sabido que não fazemos girar o mundo. Nem somos nós que empurramos o comboio da vida.
 
 
 
No dia anterior à minha última viagem a Los Angeles, engripado, stressado, baralhado com preparativos atípicos para uma viagem atípica, imaginando o horror de 3 + 12 horas de avião, enterrado, soterrado, preso numa cadeira apertada a agravar as dores no corpo, tudo me parecendo impossível de fazer acontecer. Os tempos, a necessidade de descanso, o acordar de madrugada, o João que não dorme, o parque do aeroporto que não se confirma, o AirBnb que complicou, o lugar que não conheço, os dólares que não chegaram a tempo, as mil incertezas dos dias seguintes e do próprio curso em si...
 
 
 
Tudo isto é banal e rotineiro. Com picos, claro, mas todos temos momentos destes de nos sentirmos incapazes, aperreados na nossa existência. Confrontados, esticados, amarrados, contrariados, testados. E é muito diferente viver essa mesma experiência a partir de um sítio de certeza, de alinhamento, de confiança, ou acharmos que somos nós quem vai resolver tudo. Não somos. Quero dizer, somos, claro, ninguém vem resolver nada por nós, mas é só que a cada momento, a cada passo, a cada par de meias que vão parar à mala, a cada telefonema a cancelar a reserva, saberemos o que fazer no instante a seguir, e no outro também, e no outro. Dentro dos limites que são os limites do real, nossos, dos outros, do universo.
 
 
E muito diferente navegar tudo isso reconhecendo que há um comboio em viagem. Algo mais que nos leva. Algo que bate as horas do relógio. Que garante o ritmo do jogo. Algo para além de nós, que nos leva a decidir, a cada momento, para onde vai o braço a seguir. E que esforço a mais não é quando andamos nesse comboio preocupados com o comboio em si? E quão mais fácil não é quando sabemos que, mais meia menos meia, mais camisola menos camisola, mais livro menos livro, mais medicamento menos medicamento, eu vou mesmo acabar por fechar esta mala, e vou acabar por chegar ao aeroporto, e algures no tempo aterrarei em L.A. e acabarei por conseguir encontrar onde pousar o corpo e recuperar. E que farei o curso, provavelmente, mais jet-lag menos jet-lag, e que acabarei por regressar e dar todos os passos que a vida me pedir para dar, como souber, um atrás do outro, enquanto houver passos para dar.
 
 
De tão simples fica difícil de descrever. Mas um vislumbre basta. De que não empurramos verdadeiramente o comboio. Saber isso é suficiente para tudo ficar diferente. Igual por fora, mas mais rico, mais em câmara lenta, mais espaçoso, mais saboroso, mais divertido, menos sério, e mais cheio de mil oportunidades para apenas estar. Estar onde? Em viagem, certamente, mas sem querer necessariamente chegar a lado nenhum. Porque tudo o que há está aqui. Já e agora. Pousado nesta serenidade de saber que tudo correrá bem, desde que nos apresentemos ao serviço de estar realmente. É esse o nosso trabalho permanente, mais simples do que poderíamos imaginar. Mais fácil do que alguma vez nos poderiam ensinar: estarmos, entregues a cada momento, a cada conflito, a cada problema, a cada situação, a cada prazer, a cada pedaço de música que quer falar connosco.
 
 
É, nunca estive tão convicto: é esse o nosso trabalho - sermos. Sempre e apenas. Que simples!...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Gonçalo Gil Mata
 
 
 

 
(Foto: Venice Beach, L.A., USA)
 
 

 

2 comments
Frederico Ferreira
De facto, de vez em quando, a nossa cabeça anda tão ocupada com coisas que no momento em que as pensamos parecem ser tão importantes e tão urgentes de resolver que nos esquecemos de respirar um pouco, esvaziar a cabeça. A parte mais importante é não nos deixarmos "atraiçoar" por pensamentos impulsivos. Muitas das vezes os nossos primeiros pensamentos não correspondem à realidade. Melhor ainda os nossos pensamentos às vezes distorcem a realidade. Às vezes fazemos "grandes filmes" à volta de uma questão, fazemos dela um bicho de sete cabeças, quando na verdade a questão até era fácil de resolver. O melhor é sempre seguir a máxima do "go with the flow". Com o tempo e com paciência o mundo revela-nos o curso de acção certo.
in 2018-02-21 12:53:06
Ni
A 1a vez q fiz 9 horas de voo, descobri q so bo voo so poderia comprar comida com cartão de crédito. Não tenho. Pensei q ia passar fome. O avião teve 13h de atraso e...deram me 3 vouchers de comida :) . Tudo se resolve por si :)
in 2018-02-01 19:21:15
Leave a comment:

Name *
E-mail
Message *
Verification