A HISTÓRIA DO TIGRE E DO URSO
15-05-2017
A HISTÓRIA DO TIGRE E DO URSO

 




Era uma vez um tigre e um urso que, ainda bebés, foram abandonados pelas respetivas progenitoras e restante família, no meio de um violento incêndio na floresta. Por mera coincidência do acaso, e alguma sabedoria da natureza, tão juntos estavam, tão juntos ficaram. Estranhamente, cresceram como irmãos improváveis, aprendendo a sobreviver em parelha, frágeis, num ambiente hostil.


Embora, claro, com estilos muito diferentes, a verdade é que faziam quase tudo juntos. E à noite, para se protegerem do frio, e dos perigos que sempre espreitavam, dormiam enrolados um no outro.



De vez em quando, acontecia que se zangavam. Por algum instinto que nenhum compreendia, espetava-se uma garra afiada, respondia o outro com igual violência, magoavam-se, sangravam, e durante um tempo viviam e dormiam um pouco afastados, a uma distância cordial, igualmente cooperante, mas mais segura. Em breve, no entanto, com o passar dos dias, vinha o frio e a vontade de aconchego, e, de forma inocente, natural, sempre se voltavam a encontrar e tudo voltava ao costume. Era uma relação forte e maravilhosa, embora nenhum deles tivesse bem consciência disso.



Um dia, veio uma zanga tão zangada, de tal violência, magoando-se de forma tão selvagem e feroz, que se separaram mais do que o costume. Continuaram próximos, partilhando as coisas do dia-a-dia, mas qualquer barreira indelével tinha crescido a separá-los, diferente das anteriores. Não se consumia. Não se gastava. Era sólida e estável.


Assim, cada um ocupou uma posição segura, confortável. Durou muito tempo. Tudo funcionava relativamente bem. Apenas a alegria e o entusiasmo tinham desaparecido. Qualquer coisa de artificial sustentava aquela distância, não deixando que a natural atração os juntasse. Em particular, nunca mais dormiram enroscados, e acabaram por se habituar ao frio que fazia à noite.



Passou-se muito tempo e nada mudou. Até que um dia uma pequena catástrofe aconteceu. Num passo incauto, o tigre sofreu um acidente terrível e acabou por morrer. O urso uivou durante horas seguidas, num grito que arrepiava. Incansável, rodeando às voltas o corpo inerte do tigre, lançava aos ventos um eterno pedido de ajuda.



Quando por fim acalmou, vendo que nada havia a fazer, enroscou-se no tigre, espantado com o frio inédito que lhe sentia na pele. Suspirou, e, mergulhado numa profunda tristeza, adormeceu apertando o mais que podia aquele corpo junto ao seu. Quem sabe, talvez relembrasse aquele aconchego, que sempre lhe pertencera, e que estivera tão perto, e ao mesmo tempo tão distante. Quem sabe talvez se perguntasse que raio de barreira invisível e inultrapassável o impediu de o ter mais vezes, enquanto podia...



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Urge amar. Sem amarras. Já. Hoje. De ida e volta, uma e outra vez regressando o espírito à torrente original. Pura, inocente, plena. Quem nos contou a mentira de que mais valia viver a uma distância prudente? Quem nos aldrabou dessa maneira, convencendo-nos a valorar a dor temporária acima da felicidade de longo prazo? Quem nos pôs a poupar as notas, os vintes da pauta, como se houvesse uma promessa credível de infinito? Como se algo diferente viesse mais tarde, sendo que o tempo acabou por passar e se esgotar, todo, nada vindo?


Não ligues tanto ao medo, meu pequeno, que a vida é grande e o susto é certo. Nota apenas que ele sempre se vai, qual nuvem passageira. E então, aceitar esse sol que fica, de alma aberta, vale mais que mil seguranças!




 

 
 
 
 
 
 
Gonçalo Gil Mata
 
 
 

 
(Foto: Rajastão, ÍNDIA)
 
 
 

 

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