BOM CAMINHO!
ARTICLES • 25-05-2017
BOM CAMINHO!

 



"Bom caminho!", diz-se, quando nos cruzamos com quem também por ali viaja. Cada um a fazer o seu. Uns mais em companhia, outros mais em solidão, todos partilhando uma sensação semi-aventureira de uma experiência de paz prometida.


Segui a recomendação e lá fui. Teria que ser bom o caminho, era sabido.



Não sei bem o que sobra de toda a experiência, dos quilómetros, da relativa dureza do trilho se o fazemos com mais pressa, da paisagem, mergulhada no granito do norte, orlando o pinhal aqui, mergulhando nos campos de cultivo acolá. Sempre sob um silêncio equilibrado que nos embala em tranquilidade. A de sabermos que estamos a fazer aquilo que é suposto. Haverá lá paz mais certeira que a de uma passada acomodada com a certeza do rumo?


A cada seta a sensação de estarmos bem. Horas de passadas certeiras, badaladas aqui e ali num gongo de sino a vibrar livre e desamparado, num eco prolongado a evidenciar espaço. Há espaço naquele caminho. Por ser uma viagem da mente também. Sempre perdendo corda esse relógio de ruído interno, crescentemente mais pacífico, porque, no fundo, há sempre algo a fazer: avançar. Algo evidente, delineado, traçado, restando pouco a pensar sobre essa ação.


Um pé atrás do outro, um pedal que se afunda mais uma vez, e outra, e, mesmo se a ladeira sobe muito, sempre funciona afundá-lo uma vez mais, e outra, e faz-se o caminho, quase sozinho, porque nada pede uma decisão. Apenas flui o trilho, mais fechado umas vezes, parecendo saído de uma floresta encantada de Harry Potter, mais aberto outras tantas, agora sobre um precipício a impor respeito, a água a sussurrar lá em baixo, subindo ainda mais entretanto, com o grande rio a surgir ao fundo. Para cima, para baixo, atravessando pequenos vilarejos, aldeias, e também vilas maiores, mas eternamente voltando a mergulhar no silêncio. O restolhar da gravilha a marcar pano de fundo, num ritmo simples, natural, compassado, e imparável. E mesmo quando já nos diz o corpo que basta, sabemos puxar pelo limite. Exaustos à chegada da camarata, claro, mas mais leves certamente, mesmo não sabendo porquê.



Muito mais tarde vem a sensação da distância percorrida, tanta, e o aconchego dos quilómetros agora medidos em marcos mais nobres, o sentimento de estarmos perto, de fazer sentido um último esforço, a certeza de que já conseguimos, embora ainda falte qualquer coisa. E por fim, a urbe intensa, mas quase distante, porque há um espaço interior que se abriu e onde cabemos, arejados, oxigenados, folgados e independentes do barulho cá fora, que quase perde o sentido. De onde vem tanta algazarra, tantas pessoas, tudo tão apertado cá fora e tão espaçoso cá dentro. Que barreira nos separa?


E ainda se sobe mais e mais, e lá no alto, quando finalmente aplana a exigência, sempre chega essa praça ampla e generosa, onde nos espera um abraço fiel, uma saudade a abater, e a segurança ampliada de que nunca vamos sozinhos no grande caminho...


Parece incrível, mas basta um vislumbre fugidio sobre a essência desse todo, sobre essa ligação misteriosa às nossas origens, e tudo fica diferente. Mais calmo, mais seguro.


Sim, há naturalmente um regresso ao de sempre. Claro que as contas para pagar voltam e os horários, e a pressão, e o trânsito estão lá novamente. Claro que tudo isso regressa e que, ao fim de um pouco, está tudo mais ou menos como antes. Mas, mesmo se perdido de vista, aquilo que lá se viu não se pode desver. Fica para sempre gravada a certeza de estar lá, como um sol para lá das nuvens num dia cinzento escuro.


Podemos passar um resto de vida a tentar repetir a fórmula de o ter outra vez, que nunca será o mesmo. Por ser o novo que traz essa sintonia. Por essa paz residir na exploração livre e inocente de quem se deixa viajar por dentro. Sem intenção. Sem regras. Sem certezas. Sem manual de instruções. Como uma criança que explora brinquedos num quarto desconhecido.



Há magia nesse espaço interior que se abre quando não queremos controlar o mundo. Há sabedoria à espera para quem sabe como é importante não querer saber. E há momentos em que um mero pé a seguir ao outro, repetido num caminho banal e tranquilo, por distância suficiente que embale a passada em silêncio interior, é tudo o que é preciso para tropeçarmos sem querer num instante eterno de clareza infinita.



Bom caminho!


 

 
 
 
 
 
 
Gonçalo Gil Mata
 
 
 

 
(Foto: A caminho de Santiago de Compostela, ESPANHA)
 
 
 

 

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