GPS INTERNO
ARTICLES • 23-06-2017
GPS INTERNO

 

 
"Segue o teu coração."
 
"Confia no teu instinto."
 
"Sê tu mesmo!"
 
 
Todos já ouvimos estas recomendações. Cheias de sentido para quem as diz. Tantas vezes abstratas para quem ouve. O que é isso de "sentir o que está certo"? O que é isso de uma "voz interior a dizer-nos o caminho"?
 
 
Também nos vendem esta ideia quando aprendemos algo como jogar golfe, ou uma arte marcial, ou um instrumento musical. Aparentemente, desde dançar a saltar em queda livre, muitas atividades solicitam o clássico: "Não penses! Sente! Vai pelo feeling!", que sabemos serem instruções absolutamente desconcertantes...
 
 
 
Pôr de lado toda a nossa habitual aprendizagem intelectual, a nossa razão, a nossa lógica, e o paradigma escolar que nos habituou tantos anos, não é fácil. Sobre isto, vale a pena recordar a frase de Mark Twain:
 
 
"If we learned to walk and talk the way we learn to read and write, everyone would limp and stutter!"*
 
 
 
Há algo de subtil na aprendizagem pela experiência, mais somática, mais sensorial, a que uma criança tipicamente recorre para aprender a maior parte das suas atividades mais habilidosas. Uma dica aqui e acolá podem ajudar, mas... onde os pais se esforçam por dar um manual de instruções completo sobre pedais, equilíbrio, e guiador, a maior parte delas simplesmente vai, tenta, falha, tenta outra vez e aprende! Explorar está-lhes no sangue, e acham que falhar não é nada de muito importante. Assim, mais depressa aprendem ao ignorar as bem-intencionadas instruções, que só atrapalham no momento em que a intuição está a trabalhar a todo o vapor.
 
 
Só que na vida as coisas complicam, tornam-se mais complexas e tendemos, cada vez mais, a motorizar aprendizagem pelo intelecto. No secundário, na faculdade, no emprego, nos negócios, nas finanças, e nas grandes escolhas como a compra do casa. 
 
Ora, esta escolaridade intelectual não nos presta sempre um bom serviço. Ou pelo menos não nos presta um serviço completo. Por exemplo nas relações, na diversão, e... porque não, no rumo da própria vida?
 
 
 
Como confiar na componente da intuição? Na maioria das cabeças, há muitas vozes. Como saber qual é a instrução certa? Umas falam sobre o que apetece no momento, outras são mais compreensivas, outras mais zangadas e ativas, outras mais calmas e contemplativas... enfim, como saber, então, se é mesmo altura de largar esse emprego, essa relação, essa vida, seguir essa tal intuição de que algo não está no sítio? Como saber respeitar um certo desassossego que vem mais "da alma"?
 
 
 
Felizmente todos temos um GPS interno a dar-nos instruções certeiras. Que podemos ou não ignorar. Um "vire à direita" ignorado, dará azo a um "recalculando rota...". E as instruções prosseguem, impassíveis, sempre a fazer o seu trabalho, mesmo se as ignoramos o caminho todo. O problema é que este nosso GPS não tem volume, e "fala" muito baixinho... Isto é, mesmo com muito ruído dentro do carro, rádio muito alto e conversa acesa, ele dará as suas instruções, mas serão quase inaudíveis. E não há como subir a intensidade desse GPS.
 
 
A única forma, claro, é silenciar mais o contexto. Há que deixar que esse ruído interno, muitas vezes motorizado intelectualmente, perca um pouco a corda. Pôr de lado o nosso "eu" mais atuador, que quer resolver o mundo de uma vez por todas, e mergulhar mais no nosso "eu" mais observador, cujo juízo de valor é muito mais profundo, muito mais conectado, menos egocêntrico, mais sensível, e muita mais capaz de boas decisões de fundo...
 
 
O GPS está lá, não duvidemos. Tem a bússola afinada, sim senhor. Falta apenas o silêncio interior para se fazer ouvir. E esse pende da confiança pujante de que tudo vai correr bem, para que surja a autorização de se abrir o espaço e o sossego de vermos mais longe, de vermos diferente, de ganharmos perspetiva e direção. No fundo, descortinar o que já sabemos, e que está tantas vezes oculto por uma preocupação atrapalhada de driblar mil detalhes menores. Mas, uma e outra vez, mal assenta a poeira, mal deixamos de bater com os pés na terra levantando todo esse pó, volta o caminho a ficar evidente, desenhando-se à nossa frente como uma fotografia que magicamente se revela no banho do laboratório...
 
 
É, confusa é a mente, com potencial infinito para ativar complicómetros mil. Mas há sempre esperança. Porque, no pano de fundo, está lá algo maior a garantir o alinhamento geral. Por isso, autorizemo-nos a sossegar, que daí vêm todas as instruções de que precisamos...
 
 
 
* "Se aprendêssemos a andar e falar da forma como aprendemos a ler e escrever, todos iríamos coxear e gaguejar."
 

 

 

Gonçalo Gil Mata
 


Pantanal, BRASIL

 

 

 


Vem aí o Reinvention Day!

É já no próximo dia 14 de julho. Uma oportunidade única, que só acontece uma vez por ano, para sossegar e aceder ao nosso GPS interno.

Um dia inteiro dedicado a reinventar rumo.

 
1 comment
ana maria lima abreu
Solicito favor se vai proferir seminario conferencia et c deste tema
Grata
Cumprimentos
Ana Maria Abreu
in 2017-06-25 10:56:20
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