OSSOS CUSPIDOS
ARTICLES • 16-04-2018
OSSOS CUSPIDOS

 


 
É um facto. Uma realidade tão cruel quão isenta: o universo engole qualquer evento e cospe-lhe os ossos, como se nada fosse. Um terramoto que arrasa uma cidade, um filho de 3 anos que morre num acidente, um cancro inesperado, uma guerra mundial, ou uma chuvada num casamento, os vestidos feitos num pingo. Cada um faz o que sabe, salve-se quem puder se assim for de gritar e, no dia seguinte, no ano seguinte, na década seguinte, tudo está como sempre, o mundo girando ao ritmo costumeiro de vinte e quatro horas por volta. Algumas lições aprendidas, se não somos casmurros, alguns medos reprogramados, e é isto. De volta ao jogo.
 
 
Por muito que saibamos, logicamente, que cada um fará sempre o que sabe e pode e lhe ocorre fazer, a cada momento da sua vida, teimamos em prever, projetar, preparar, evitar, calcular. Somos bons a planear no mundo real da forma e dos objetos, não tenho grandes dúvidas. Espantam-me coisas do tipo o túnel do Canal da Mancha: vai um de um lado e cava em frente 25km, vai outro do outro lado e faz o mesmo e não é que acertam com um erro de 2 cm? Já lá vão mais de 20 anos...
 
Somos bons a planear o mundo cá fora, dos túneis às trajetórias das missões espaciais. Já o mundo das ideias... parece gravitar em torno de uma aleatoriedade que simplesmente não dominamos. Ainda nem sabemos bem o que vai acontecer, e já essa incerteza nos dispara o alarme da alma, que vou ficar sem dinheiro, que vou ficar sozinho, que não vou conseguir, que ninguém vai gostar de mim, que não vou aguentar, que vou sentir x e y e z... Estes são os planos dos nossos engenheiros pessoais da mente, que habitam cá no alto, mas cujos cálculos mais parecem os de uma leitura de búzios ou das cartas do Tarot: acertando só muito de vez em quando! Mas nós, de confiança plena na nossa auto-bruxaria, preparamo-nos, antecipamos, pre-ocupamo-nos, sofremos, angustiamos, panicamos, e vivemos com grande intensidade esse filme mental do futuro, pura ficção científica acabada de inventar. E mesmo não estando a acontecer, é o que vivemos, é o que sentimos, é o que experienciamos. Na verdade, qual lobo mau assustador debaixo da cama da criança, o facto de o enredo ser altamente duvidoso em nada prejudica o terror autêntico dessa película imaginada...
 
 
Depois chega a prevista tormenta, a verdadeira, a real, a que existe mesmo, e lá estamos nós, a fazer a nossa parte. Como pudermos, como soubermos. E pensamos: agora é que é, agora é que isto vai doer, e depois damos um passo, depois outro, e os que forem precisos dar, os que nos mandarem dar - porque quase sempre as tempestades a sério vêm com manual de instruções - e pronto. Já está. Passa o tufão e perguntamo-nos: então era só isto? Na confusão do momento até me esqueci de sofrer...
 
É impossível que fosse tão simples, podemos dizer, e então ligamos o complicómetro outra vez, qual velho projetor na saleta da cave, a rebobinar a tristeza ou o medonho que eram supostos estar lá, no momento, e que se foram, numa distração de outro pensamento. Sim, porque haverá algum sentimento que não seja um mero pensamento?
 
Ou então passa o susto e logo arranjamos outro assunto que nos mereça a angústia, mesmo se inventado à pressa, um que levante um pouco que seja o véu sobre uma assustadora possibilidade de nos termos que arreliar, ou zangar, ou lidar com algo maior do que nós... como se alguma vez algo pudesse pedir de nós um milímetro que seja a mais do que nós podemos dar...
 
 
É, nem sempre sabemos o que fazer com a simplicidade do vazio que se instala se não estamos a magicar por antecipação. Que pena. Porque fértil de plenitude é o terreno que se instala no silêncio da mente. E bem mais simples seria a vida se não creditássemos de forma tão generosa os filmes constantes da mente. Se confiássemos um pouco mais que, lá chegando, faremos o que pudermos, e que, no entretanto, antes de lá chegar, também. E que apontaremos os lasers que pudermos para chegar ao túnel do vizinho tão aprumados como ele, claro.
 
Mas... o que está para lá disso, para lá do que podemos e sabemos fazer, deixemo-lo entregue aos deuses. A nós, resta-nos saborear a caminhada, esperando pelo melhor, talvez, lembrando que é do filme da mente a cada instante que sempre vivemos. Não de outra coisa.
 
 
Gonçalo Gil Mata
 
 
 

 

(Foto: Goa, ÍNDIA)

 

 

 

 

 

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