OVERRATING EMOTIONS
ARTICLES • 24-09-2014
OVERRATING EMOTIONS

Vale de la Luna, ARGENTINA


 

 
Lembram-se de chorar em adolescentes? Pessoalmente, recordo vagamente que chorar exigia espaço. Porque havia vergonha. Parece-me termos ideias pré-concebidas quanto à classificação das emoções: estar triste é mau, estar contente é bom. Ter medo é mau, estar confiante é bom. É como se houvesse uma tabela de quantos pontos vale cada uma.
 
 
[E aqui não quero desafiar os iluminados na matéria da nomenclatura da neuro-ciência: por emoções/sentimentos, estou a referir-me a um determinado estado mental, mais ou menos passageiro, mais ou menos automático, tudo no mesmo saco - puro sacrilégio!]
 
 
Como consequência desta tabela classificativa aceite sem grandes questões, existe a correspondente prescrição cultural sobre a corrida aos pontos: se calharmos de estar num estado mental considerado "mau" - do fundo da tabela - há que mudar o mundo à nossa volta para corrigir; e se estamos no topo, há que perceber as regras que possam manter e repetir o feito.
 
 
Ora, nesta lógica há um pressuposto que me parece profundamente errado, porque na verdade as nossas emoções dependem muito mais da nossa criação interna, do que das circunstâncias exteriores. São um produto fabricado pelo pensamento, como resposta natural a um determinado potencial de ação. Por exemplo: medo suscita procurar proteção, stress prepara-nos para intensidade física, tristeza pede paz para purgar uma saudade. E às vezes fazem sentido, e outras não. O medo de andar de avião numa viagem que quero fazer não me presta um grande serviço. Dar-lhe mais importância do que reconhecer que algo automático está a disparar, é agravar a situação. É querer evitar um facto. E muitas das vezes, é alimentá-lo!
 
 
No momento em que aceitamos que as emoções seguem a volatilidade do nosso pensamento, e as deixamos fazer o seu trabalho, ir à sua vida, passear-nos o céu mental como nuvens passageiras que são, uma conclusão radicalmente diferente pode surgir: o que sentimos e a realidade não oscilam de forma síncrona. Um dia stressamos com uma pequena embrulhada, no dia seguinte estamos relativamente calmos no meio do caos. Um dia irritamo-nos com quem deixou a luz da casa de banho acesa, no dia seguinte passamos o dia zen, sorrindo a duas ou três asneiradas que nos fazem no trânsito.
 
 
Quando acreditamos que existe uma causa-efeito do tipo realidade->emoção, sem nos apercebermos do gigantesco filtro do pensamento que está pelo meio, e onde tudo é digerido de forma imprevisível, vamos empecilhar o mecanismo que faz o planeta girar e que nos lava a alma se deixamos. E falhamos a leveza inocente da criança que num momento se desespera de zangada e no instante a seguir se entrega sem reservas num abraço sentido. Sem amarras. Puramente livre para deixar fluir.
 
 
Ao apercebemo-nos que o que sentimos é apenas um filme a ser projetado numa tela mental, e que daí a nada teremos na imagem uma cena diferente, damos menos importância à montanha-russa. A notável consequência, é que as emoções más passam mais depressa, porque não nos agarramos a elas como força motora de mudar o mundo, e as boas sentem-se mais intensas, porque não nos desfocamos delas à procura de regras que as repitam.
 
 

 

 

OVERRATING EMOTIONS
 
 
Do you remember crying when you were a teenager? Personally, I recall vaguely that crying demanded space. Because there was shame. It seems to me we have preconceived ideas about classifying emotions: it is bad to be sad, it is good to be happy. To fear is bad, being confident is good. It’s as if there is a scoreboard of how many points each one is worth.
 
 
[And I don’t want to challenge the enlightened in the matter of neuro-science nomenclature: by emotions/feelings, I am referring here to a certain state of mind, more or less transitory, more or less automatic, all in the same bag - pure sacrilege!]
 
 
As a consequence of this scoreboard that we accept without major questions, there is a corresponding cultural prescription about the race to the points: if, by chance, we are in a mental state considered "bad" - the bottom of the scoreboard – we feel like we must change the world around us to correct it; and if we're on top, we must realize which rules can maintain or repeat the feat.
 
 
But in this logic there is an assumption that seems deeply wrong, because in fact our emotions are much more dependent on our internal creation than an external circumstances. They are a thought made product, as natural answer to a particular action potential. For example: fear leads us to seek protection, stress prepares us for physical intensity, sadness calls for peace to purge that longing. And sometimes they make sense and sometimes they don’t. Fear of flying on a trip that I want to do, doesn’t pay me a great service. To give it more importance than to recognize that something automatic has been triggered, is aggravating the situation. It is the desire to avoid a fact. And often, it is to feed it!
 
 
When we accept that emotions follow the volatility of our thoughts, and let them do their job, follow their courses, walk-in our mental sky like the clouds they are, a radically different conclusion may arise: what we feel and the reality do not oscillate synchronously. One day we stress with a little mess, the next day we are relatively calm in the midst of chaos. One day we get furious because someone left the bathroom light on, the next day we spend the day in a zen state, smiling at some other drivers traffic mistakes.
 
 
When we believe that there is a reality-> emotion type cause-effect, without realizing the gigantic thinking filter in between, where everything is unpredictably digested, we jam the mechanism that makes the planet spin and wash our soul if we allow it to. And we fail the innocent lightness of a child that despairs in anger and then surrenders unreservedly to a heart felt hug. No strings attached. Free to purely let it flow.
 
 
When we realize that what we feel is just a movie being projected on a mental screen, and that soon we’ll easily have a different scene in the picture, we give less importance to the roller coaster. The remarkable consequence is that the bad emotions disappear faster, because we’re not holding on to them as a driving force to change the world, and good feelings are experienced more intensively because we don't disregard them in the search of the rules that make them set repeated.
 
 
 
 
 
 
2 comments
Andreia
Achei muito muito bom! Completamente de acordo! Fica o pedido para não deixar de partilhar as suas perspectivas.
Muitos parabéns.
Vou partilhar
in 2014-09-25 20:59:40
Rita Gil Mata
A possibilidade deste texto é tão boa, mas tão boa que só apetece agarrá-la com muita força e passar a fazer desse modo. O que me parece não ser o melhor de acordo com o pressuposto fundamental da volatilidade do pensamento :)
Como pôr em prática? Fica a sugestão para próximos textos :)
in 2014-09-24 11:15:17
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