ETERNA ESTREIA
ARTICLES • 27-11-2017
ETERNA ESTREIA

 


 
Por detrás há um pano de fundo. Profundo, fiável, sereno, pacífico. Como um mergulho num mar revolto, lá em baixo tudo calmo, imperturbado pelas ondas da superfície. Um ponto de apoio, fixo, uma âncora de estabilidade. Um manancial de paz - a matéria prima de que somos feitos.
 
É o palco que suporta o teatro das emoções. Vazio durante a noite, quando a poeira assentou, depois de todas as cambalhotas de enredo que nele criaram amores e traições, guerras e revoltas, tempestades e vendavais. No fim, sempre volta ao mesmo. A essa serenidade plena de meras ripas de madeira no escuro abandonadas, um estrado ainda há pouco mil vezes calcado debaixo do foco da ribalta. Puro potencial de criação em descanso. Um instrumento musical numa sala vazia. Uma tela virgem à espera do artista. Trampolim de todo o nosso imaginário, de todo o possível que ainda não chegou a ser.
 
 
O palco não contém as emoções, como a terra fértil não contém as laranjeiras, que brotam à superfície. Tem antes toda a possibilidade que aguarda. Às vezes assustando por isso, também. O tamanho do tudo não nos cabe, como a morte infinita não nos cabe, tudo isso desafia os limites de representação, assusta...
 
 
E, no entanto, basta um vislumbre deste todo tão pacífico, uns minutos de madrugada sentados nesse palanque vazio, um momento de parceria dedicado ao nosso silêncio interior, para relembrarmos como debaixo de tanta confusão, de tantas ondas, de tanto tormento e sofrimento e dor e sensações e emoções e decisões e avaliações e arrependimentos e pinceladas e sons mil de mil instrumentos, debaixo de tantas pisadelas e piruetas e amassos e sovas e acidentes de percurso, o palco lá está. Imutável. Pronto para suportar uma nova estreia, e mais outra, e sempre outra... como se fosse a primeira vez.
 
 
Misteriosa esta vida que nos toma de furacão, qual criança distraída na orla da arrebentação, respiração impossível, ai que nos morremos aqui mesmo, e afinal não, era só uma onda, cá estamos, que nos devolveu à terra, tosse a saber a sal e um ardor ao respirar, muita areia nos calções, mas isso lava-se e pronto, no fim, passado o tempo que for, estamos como novos.
 
 
Mas sempre apanhaste um susto, não foi? Enfim, fica para as risotas dos netos... eles, que serão um dia a nossa eterna estreia, a nossa continuidade, o prolongamento do nosso teatro... ao mesmo tempo a mesma peça de sempre e de cada vez uma novinha em folha! O que está por detrás desses olhos inocentes acabados de chegar ao mundo? De onde vem essa fonte original de energia pura a animar matéria? Porque nos toca tão profundamente, acompanhando de lágrimas o pasmo, o mistério, o espanto de por um instante tudo ser tão assustadoramente simples?
 
 
O sol não amanhece gasto e cansado do dia anterior. E é ao percebermos que esta propriedade de frescura e recriação existe em cada um de nós, que deixa de nos parecer tão arriscado entrar em cada peça de teatro de alma exposta e vulnerável, verdadeiramente disponível para aceitar o convite para viver e sentir...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Gonçalo Gil Mata
 
 
 

 
(Foto: Ria de Aveiro, PORTUGAL)
 
 

 

1 comment
Flora Cunha Ferreira
Muito bem pensado.
Bem escrito e descrito o conceito.
Parabéns.F.F.
in 2017-11-30 11:25:19
Leave a comment:

Name *
E-mail
Message *
Verification