VELHOS SEM NOVOS SONHOS
ARTICLES • 15-11-2017
VELHOS SEM NOVOS SONHOS

 


 
Diz o médico à paciente, de 65 anos: "Não pode estar nesta apatia! Tem que ter interesses na vida... Na próxima consulta traga-me um projeto!"
 
Mas que história esta, a de termos que ter sonhos e projetos. Mas que arrelia... não me deixam estar sossegada. Vou agora inventar vontade que não tenho... mas de onde vem essa check-list que diz que quem não tem projetos não é boa gente? Eu sonhar, sonho... sonho com deixarem-me estar no meu canto, sem vontade de correr, apenas assim como estou. Eu mexo-me para tudo o que preciso. Só não preciso das mesmas coisas. Basta-me um livro ou dois ou três, e a minha meia de leite no café e pronto, cá me vou arranjando. Apenas tenho que ir aturando os meus filhos a massacrarem-me o juízo, que devia aproveitar a reforma... mas qual aproveitar, sabem lá eles do que falam. Haviam primeiro de cá chegar e depois conversávamos. Isto é como quem fala de educar os filhos sem os ter. Aproveitada estou eu, quieta no meu sofá, finalmente com direito a ele. Já não há respeito pela falta de vontade. Que mania essa de termos que estar sempre desassossegados com o que ainda não temos.
 
 
Mas também confesso que era bem essa ideia de uma viagem, isso era. Sempre gostei de novos ares, não é de agora... mas faz-me confusão dormir fora da minha cama. E as línguas? E se me perco e ninguém me entende? E se não consigo resolver? Só a ideia entro já numa aflição que me sobem as tensões... Mas lá que gostava de ver outras paragens, isso gostava. Ou aqueles animais da National Geographic, lá para os lados de África. É de lá que vimos enquanto espécie, sabe? Dizem que se sente isso, nos cheiros e nos sons da terra... dizem que é visceral... sempre gostava de ver, lá isso gostava.
 
E sim, também gosto de uma conversa interessante aqui ou ali. Mas não para ter de aturar aqueles encontros sociais, ai credo, que não tenho paciência para isso, todos ali sem saber o que dizer, só a vermos o que o outro fez da vida, a comparar, que se for pior que a minha sempre vou para casa mais descansada, que ideia tão tola para nos encontrarmos. Ir à faculdade a uma palestra ou outra, isso está bem. Sempre se põe a cabeça a magicar, e a vontade de aprender parece estar sempre a ponto de se espevitar, é bem verdade. E um filme de vez em quando, está bem, mas eu aqui com tantos canais não preciso de ir para o cinema apanhar frio, vejo-os muito bem aqui no meu canto, ou pelo menos a primeira parte, até adormecer...
 
 
Mexer-me, não me mexer... olhe, não sei que lhe diga. Não sei bem. Quero pertencer, claro, faz-me falta ver os netos. Quero sentir que estou viva, também. Mas, uma coisa tenho certa: não quero TER que me mexer. E acho que isso é que me está a travar. A obrigação da coisa. Está a ficar um pouco como a minha religião - de tão desiludida criei-lhe aversão. A concretização não cumpre o que promete. Isto de andarmos a correr para termos cada vez mais, para sermos cada vez melhor, para ver se fazemos tudo antes de morrer... nada disso cumpre com a promessa. Acho que foi por isso que fiquei assim um bocado anti-mexer-me, porque anda tudo a avaliar-me, a ver se mexo ou não.
 
Quem sabe, um dia, vou apenas mexer-me porque sim. Só porque sim. E só porque me faz sentido e sem este medo de o que quer dizer sobre mim estar ou não estar parada. Olhe, sabe, é isso mesmo: o que preciso é que me deixem em paz com essa história. E não pensar muito no caso, nem para sim, nem para não. 
 
Agora que falo nisso, só essa ideia de alívio até já me está a dar uma vontadezinha de ir ali à praia cheirar o mar e ver as ondas bater... enfim, só porque sim! E, digo eu, não será essa a melhor forma que de nos pôrmos todos a mexer? Enfim, só porque sim... Até já!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Gonçalo Gil Mata
 
 
 

 
(Foto: Gorkha, NEPAL)
 
 

 

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