INTENTO ENVENENADO
ARTICLES • 05-11-2018
INTENTO ENVENENADO

 


 


Como é volátil a nossa realidade. Ainda há dias mergulhava num tédio intenso, e agora flutuo na simplicidade algo niilista de apenas estar, usufruindo da típica leveza que daí vem. Da amplitude sensorial, do sentimento de presença e força da ligação humana. Ainda há pouco me pareceu a vida ser intrinsecamente monótona e aborrecida, e rapidamente a desistência de a corrigir transformou a banda sonora do filme. Cederam os violinos pessimistas, veio o silêncio, logo alguns passarinhos primaveris, em breve quem sabe algumas trompas de triunfo e euforia, e talvez mais tarde o ribombar de uma tempestade, do conflito, e logo outra vez os violinos, quem sabe um oboé tristonho a dar tons de cinzento ao enredo. A realidade não muda grande coisa, mas os efeitos especiais contam muito!

Queremos perceber. Para domar. Para dominar. Para ter o que achamos que é o bom.
Na intenção está o engano. Na intenção está a crença de que existe mesmo algo real no que sentimos. A crença de que não é apenas o efeito da banda sonora. De que não é apenas um filme. Na intenção de perceber está a intenção de controlar. Cheia de juízo de valor e arrogância de saber o que está bem. É na intenção que se descobre o profundamente errado ponto de partida: a escolha. A necessidade de escolher, de avaliar.


Procuramos paz. Procuramos ausência de ruído. Procuramos essas posições de estabilidade e sossego que julgamos prometerem o "bem". Procuramos, lutamos, cheios de intenção e movidos por incessantes apelos sociais à superação, ao esforço, ao "achievement". Por isso não percebemos quando os místicos nos falam de desistir da correria de ir atrás de não ter que correr. Por isso ficamos zonzos e tontos quando nos falam de procurar dentro. De ver mais fundo, não fora, mas dentro. Porque não sabemos fazer isso. Não sabemos fazer "não fazer". Não fomos treinados para apenas ver, apenas receber, apenas pousar, apenas deixar que se nos pouse em cima toda essa paz que perseguimos desenfreadamente.

É preciso, primeiro, ver. Que não vivemos a experiência das nossas circunstâncias. Mas sim o filme dos nossos pensamentos. Com todo os efeitos especiais incluídos.

Filmes sem pausa. Uns atrás dos outros. Metralhados pela vida, pela tecnologia, pela comunicação. Sem espaço para ver. Ainda mal estão a dar as letras do fim já nos empurram dessa sala para outra, varrendo pipocas abandonadas. Sempre mais um filme, mais uma corrida, mais uma promessa, talvez esta seja mesmo "the one".


Falta-nos o silêncio de deixar as letras passar, até virem os agradecimentos finais, e até se desligar o projetor. Falta-nos o silêncio de observar a sala do cinema e as cadeiras vazias, e olhar, com pasmo, com real apreciação, e verdadeiro interesse em compreender a realidade, para a cabina de projeção. Depois para a tela. Apreciar a natureza absolutamente intocável e crua desse pano que se ilumina a cada cena, sem um único beliscão. Que pode com todas as tempestades e guerras e tiros e traições e tristezas e euforias e lutas e desesperos e entusiasmos. Imune. Totalmente imune. Totalmente disponível para a próxima ilusão. A cura da alma não existe, porque o nosso núcleo é essa tela: nunca se arranha.


É a serenidade da tela que procuramos. Abandonada a meio da noite na escuridão. Puro potencial de magia, de criação de vida. Nessa tela, na sua natureza isenta, reside toda a paz que procuramos. Não nos foquemos, pois, no filme, no enredo, e na conquista do momento certo do filme. Antes saibamos ver que por detrás de tudo isso, já cá estamos. Aqui e agora. Numa contínua fluidez autónoma. Automática. Que em cada volta nos mostra toda a magia da ilusão única que é existirmos enquanto seres conscientes.
 


Boa projeção!

 
 
 
Gonçalo Gil Mata
 
 
 

 

(Foto: Vik, ISLÂNDIA)

 

 

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